Reprodução/G1 ParanáParanaense relata 20 dias em bunker na Ucrânia: sem água por três dias e 10 kg a menos
Marcelo, nascido em Cascavel, no Oeste do Paraná, foi à Ucrânia como voluntário e acabou na linha de frente da infantaria na região de Zaporíjia. Em vídeo, ele descreve condições extremas de sobrevivência dentro de um bunker improvisado.
Marcelo nasceu em Cascavel e morava há um ano nos Estados Unidos quando viajou para a Ucrânia em fevereiro deste ano. A intenção era atuar como médico de combate, aproveitando a experiência adquirida como bombeiro da Defesa Civil do Paraná. Já na primeira missão, porém, foi designado para a infantaria — setor em que os soldados ocupam trincheiras e posições defensivas na linha de frente.
Apenas três semanas após chegar ao país, ele foi enviado à região de Zaporíjia, uma das áreas mais próximas das forças russas. "É uma região extremamente perigosa. Do grupo que fez treinamento comigo, metade morreu", relatou.
Em vídeo enviado ao g1, Marcelo mostra o interior do bunker onde ficou durante parte da missão. O espaço é escavado no solo e adaptado com lonas e madeira. "É basicamente um buraco no chão. Muitas vezes nós mesmos construímos, cobrindo com madeira, lona e terra. Não há luz nem conforto", descreveu. Nas imagens, ele e outros quatro homens esquentam água da chuva com chocolate para se alimentar.
"Passei cerca de 20 dias na posição. Passei três dias sem água e perdi 10 quilos nesse período", contou. Segundo ele, a maior dificuldade não foi o combate direto, mas a escassez de suprimentos. O abastecimento das tropas ucranianas é feito por drones e, quando os equipamentos são abatidos, os soldados podem ficar dias sem receber alimentos ou água.
A higiene também é praticamente inexistente na linha de frente. "Cheguei a ficar cerca de 40 dias sem tomar banho", disse. Atualmente, enquanto aguarda a próxima missão em uma "casa segura" sem energia elétrica, ele conta que um morador local permite que os soldados tomem banho quente uma vez por semana.
Marcelo aponta os drones russos como o principal perigo no conflito. "Eles são responsáveis pela maior parte das mortes na linha de frente", afirmou. Ele relatou ter presenciado a morte de companheiros em ataques desse tipo. "Meus amigos estavam a cerca de 100 metros da posição quando foram encontrados. Em seguida, vários drones atacaram e todos morreram", descreveu.
Apesar de tudo, o paranaense diz não se arrepender da decisão. "Tomei essa decisão consciente dos riscos. Mas quero voltar para o Brasil assim que meu contrato terminar", declarou. O contrato tem duração mínima de seis meses. Enquanto isso, ele aguarda uma possível transferência para uma unidade especializada em operações com drones, considerada menos exposta do que a infantaria.
O Ministério das Relações Exteriores divulgou alerta, em junho do ano passado, sobre o alistamento de brasileiros em forças armadas estrangeiras. O órgão registrou aumento no número de casos de brasileiros que morrem em conflitos ou enfrentam dificuldades para encerrar a participação no serviço militar, e recomendou que propostas de trabalho para fins militares sejam recusadas.
Fonte: G1 Paraná