Reprodução/Bem ParanáDe mateiro a arqueólogo: paranaense dedica décadas a desvendar os Caminhos da Serra do Mar
Julio Cesar Telles Thomaz, de 63 anos, encontrou a arqueologia por acaso, ao acampar no Caminho do Itupava e deparar com garrafas dos séculos XVIII e XIX. Desde então, dedicou a carreira a estudar os caminhos históricos que conectam o Planalto paranaense ao litoral.
Natural de Arapongas, no norte do Paraná, Julio Thomaz vive em Curitiba desde 1970 e mora em Piraquara, na Região Metropolitana, desde os anos 1990. Antes de se tornar arqueólogo, ele se definia — e ainda se define — como mateiro.
A história começou no início dos anos 1980, quando ele tinha entre 19 e 20 anos e cursava Geografia na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em uma primeira visita ao Caminho do Itupava, trilha histórica que liga Curitiba a Morretes, Julio se encantou pela aventura e passou a repetir o percurso dezenas de vezes.
Em acampamentos próximos à Estação do Véu da Noiva, ele começou a encontrar grande quantidade de garrafas antigas no chão — peças dos séculos XVIII e XIX, de origens portuguesa, inglesa, francesa e belga. "Aonde eu acampava, alguém tinha acampado 250 anos antes", relatou.
O passo seguinte foi levar as garrafas, toda segunda-feira, ao Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (Cepa) da UFPR, então coordenado pelo professor doutor Igor Chmyz. A persistência rendeu um convite para ser estagiário, e foi assim que a arqueologia entrou definitivamente na vida de Julio. O local onde ele acampava, descobriu depois, era um antigo pouso no Caminho do Itupava.
Na época em que iniciou na área, não havia graduação específica em arqueologia no Brasil, e os profissionais vinham de cursos como História, Geologia ou Geografia. Hoje o cenário mudou: existem mais de uma dezena de graduações e dezenas de programas de mestrado e doutorado na área pelo país.
Julio explica que, no Brasil, mais de 90% dos arqueólogos atuam em estudos de impacto ambiental, vinculados a obras que exigem esse tipo de análise por lei. Os demais estão ligados a universidades, institutos de pesquisa, museus e instituições públicas ou privadas. Diferentemente do que se costuma imaginar, a arqueologia não estuda fósseis de animais ou plantas — seu objeto é o ser humano e a cultura material da humanidade.
Sua maior paixão, no entanto, é o Caminho do Itupava. Segundo ele, a trilha seria provavelmente um ramal do Caminho do Peabiru, aberto por indígenas para conectar o litoral atlântico ao Pacífico. O arqueólogo destaca que Curitiba foi fundada ao lado ou sobre esse caminho, e que ele foi fundamental para a emancipação do Paraná, servindo ao transporte de erva-mate em direção aos portos de Paranaguá e Antonina e aos engenhos hidráulicos da região.
Para Julio, entender esses percursos vai além da curiosidade histórica. "A gente tem de descobrir por onde viemos. Essa informação da mobilidade é constitutiva de quem fomos, de onde viemos", afirmou o arqueólogo.
Fonte: Bem Paraná