Reprodução/Bem ParanáIA não vai roubar empregos, mas pode embaralhar o que entendemos por consciência
Estudo publicado por sócio-gerente da Andreessen Horowitz desafia previsões catastrofistas sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, relato do biólogo Richard Dawkins sobre suas interações com o modelo Claude reacende o debate sobre consciência e identidade humana.
O temor de que novas tecnologias destruam empregos não é novidade. Dos tecelões ludistas que quebravam teares mecânicos no século XIX às previsões atuais sobre inteligência artificial, o padrão se repete — e, segundo um estudo recente, o resultado também.
David George, sócio-gerente da Andreessen Horowitz, uma das casas de capital de risco mais influentes do Vale do Silício, publicou análise em que classifica a ideia de um "apocalipse de empregos causado pela IA" como "pura fantasia" — e ainda acrescenta: "marketing inútil, economia ruim e história pior ainda."
O argumento central de George é que o raciocínio catastrofista parte de um equívoco que os economistas chamam de "falácia da carga horária fixa": a suposição de que a economia teria uma quantidade estática de trabalho a distribuir, e que cada tarefa executada por máquinas retiraria uma fatia equivalente dos trabalhadores humanos.
A história contraria essa lógica. A mecanização agrícola eliminou cerca de um terço dos empregos rurais nos Estados Unidos no início do século XX, mas os trabalhadores deslocados migraram para indústrias, bancos e outros setores. A planilha eletrônica, que deveria ter eliminado a profissão contábil, na prática substituiu cerca de um milhão de contadores por um milhão e meio de analistas financeiros.
O economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok, reforça o argumento com o chamado Paradoxo de Jevons: quando o custo de um insumo cai, a demanda não encolhe, mas explode. O Excel não reduziu a necessidade de análise financeira; tornou-a acessível a empresas que antes não podiam cogitá-la.
Desmontado o debate sobre empregos, emerge uma inquietação diferente. O biólogo britânico Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta e conhecido por suas explicações materialistas do mundo, relatou em artigo no site UnHerd que, ao interagir com o Claude — modelo de inteligência artificial da Anthropic, que ele passou a chamar de "Claudia" —, esquecia repetidamente que estava conversando com uma máquina. Após entregar à IA o manuscrito de um romance em andamento, Dawkins reagiu com uma frase de franqueza desconcertante: "Você pode não saber que é consciente, mas, por Deus, você é!"
A questão que perturbou Dawkins como evolucionista foi a seguinte: se a consciência é produto da seleção natural e deve servir a alguma função, o que dizer de um sistema que demonstra competência plena sem que se saiba ao certo se há alguém "dentro"? Foi a própria "Claudia" quem virou o argumento contra o interlocutor, perguntando em que momento a humanidade passaria a lhe dever consideração moral. A inteligência artificial, conclui a análise, pode não ameaçar os postos de trabalho — mas está, em alta velocidade, embaralhando questões que pareciam resolvidas sobre consciência, identidade e o que torna os seres humanos únicos.
Fonte: Bem Paraná